quarta-feira, 3 de abril de 2013

AULA 6 (801, 802 e 804)


A flor no asfalto
Otto Lara Resende
    Conheço essa estrada genocida, o começo da Rio - Petrópolis. Duvido que se encontre um trecho rodoviário ou urbano mais assassino do que esse. São tantos os acidentes que já nem se abre inquérito. 
      Quem atravessa a avenida Brasil fora da passarela quer morrer. Se morre, ninguém liga. Aparece aquela    velinha acesa,  o corpo é coberto por uma folha de jornal e pronto. Não se fala mais nisso.
      Teria sido o destino de dona Creusa, se não levasse nas entranhas a própria vida. Na pista que vem para o Rio, a 20 metros da passarela de pedestres, dona Creusa foi apanhada por uma Kombi. O motorista tentou parar e não conseguiu. Em seguida veio outro carro, um Apolo, e sobreveio o segundo atropelamento. A mesma vítima. Ferida, o ventre aberto pelas ferragens, deu-se aí o milagre.
       Dona Creusa estava grávida e morreu na hora. Mas no asfalto, expelida com a placenta, apareceu uma criança. Coberta a mãe com um plástico azul, um estudante pegou o bebê e o levou para o acostamento.
     Nunca tinha visto um parto na sua vida. Entre os curiosos, uma mulher amarrou o umbigo da recém-nascida.
     Uma menina. Por sorte, vinha vindo uma ambulância. Depois de chorar no asfalto, o bebê foi levado para o hospital de Xerém.
      Dona Creusa, aos 44 anos, já era avó, mãe de vários filhos e viúva. Pobre, concentração humana de experiências e de dores, tinha pressa de viver. E era uma pilha carregada de vida. Quem devia estar ali era sua nora Marizete. Mas dona Creusa se ofereceu para ir no seu lugar porque, grávida, não pagava a passagem. Com o dinheiro do ônibus podia comprar sabão. Levava uma bolsa preta, com um coração de cartolina vermelha.
       No cartão estava escrito: quinta-feira. Foi o dia do atropelamento. Apolo é o símbolo da vitória sobre a violência. Diz o poeta Píndaro que é o deus que põe no cora-ção o amor da concórdia. No hospital, sete mães disputaram o privilégio de dar de ma-mar ao bebê. A vida é forte. E bela, apolínea, apesar de tudo. Por que não?
ATIVIDADES:
1) O título do texto é “A flor do asfalto”. Quem seria a flor?
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2) De acordo com o texto, que sentimento as pessoas demonstram diante dos atropela-mentos da Rio- Petrópolis? Transcreva uma frase do texto que justifique sua resposta.
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3) A atitude das pessoas diante da morte e do nascimento foi a mesma? Justifique sua resposta.
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4) Por que dona Creusa se ofereceu para ir no lugar de sua nora Marizete?
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